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Escola de Evolução




Escrito por Professora Malu Moraes às 20h22
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  A Caminho de Mount Charleston              



Las Vegas é uma cidade diferente das outras: foi construída no meio do deserto do estado de Nevada, nos Estados Unidos.
A cidade fica num vale rodeado de montanhas. Sabe o que é um vale?
Vamos ver no dicionário do tio Aurélio:

Vale s.m. Depressão alongada, mais ou menos larga, cavada por um rio ou geleira. / Depressão ou planície entre montes ou no sopé de um monte. / Várzea ou planície à beira de um rio.

Pois então é isso: a cidade fica num terreno plano e baixo, de onde você pode avistar altas montanhas.

Então agora imagine ruas modernas, largas, asfaltadas, iluminadas, arborizadas, carros maravilhosos e lindas casas com belos jardins dos dois lados da rua.
Imaginou?

Pois bem, agora imagine mais: você chega numa esquina e a rua acabou; o muro da ultima casa faz divisa com quê? Com o deserto!

Sim, aquele deserto que você só viu nos filmes de bang bang: areia, cactos, pedras, e o asfalto continuando por uma estrada sem árvores, sem nenhum verde, até perder de vista e chegar nas montanhas rochosas!

É espantoso!

Pelo menos foi assim que a tia Malu se sentiu a primeira vez que saiu da cidade com o tio Jerry, de carro, para irem em direção a Mount Charleston.

Vamos consultar Wikipédia:

Mount Charleston is a census-designated place in Clark County, Nevada, United States. Named for Mount Charleston, the highest point in the area, the town is in a valley of the Spring Mountains to the northwest of Las Vegas, noted for its hiking trails, and for the Mount Charleston Lodge, a rustic hotel. Temperatures are from 20 to 30 °F lower than in Las Vegas, making it a popular place for Las Vegans to escape the heat.

Deu pra entender? Se não entendeu, procure a tradução no Google.

Pois bem, essas montanhas maravilhosas ficam somente a 45 milhas de Las Vegas. Lá a temperatura é muito mais amena no verão e no inverno a neve cobre os pinheiros e as pessoas vão para lá para esquiar e brincar.            


Nesse dia, tia Malu e tio Jerry saíram para conhecer esse lugar e almoçar num restaurante rústico que fica lá no alto.

Ela não se cansava de admirar a paisagem: assim que saíram da cidade, cada vez mais e maiores pedras; mais e mais areia; o céu de um azul brilhante e o sol parecendo queimar tudo de tão quente.

A vegetação era formada por pequenos arbustos, cactos, e umas árvores muito diferentes chamadas “joshua tree”.

De vez em quando, algumas casas apareciam inesperadamente no meio daquele deserto.

E nenhum posto de gasolina, barzinho, nada! Só areia, pedras, sol e céu azul!

Nossa! Muito diferente e interessante!




Pessoal, depois eu conto mais!
Abraço a todos,
Malu                                                     



Escrito por Professora Malu Moraes às 16h23
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Capítulo 5 - A Dona do Coração

 

Ainda bem que mesmo dormindo muito pouco, eu não me sentia sonolenta nem indisposta: parecia que alguma energia me abastecia! Mas eu me preocupava quando estava chegando a hora de ir dormir e tudo aquilo acontecendo!

Então uma noite eu pedi veementemente que, nas meditações da noite, na kundalini, fossem trazidos os que estivessem necessitados, para que eu e as equipes pudéssemos ajudar. E realmente, a partir desse dia comecei a ter a percepção dos fatos. Parece que as coisas só acontecem quando nosso livre arbítrio decide fazer alguma coisa e toma uma atitude.

Nessa noite, na meditação kundalini,comecei a sentir que havia a presença de um espírito de mulher, alguém que reclamava, chorava, parecia revoltada e brava.

Dizia mais ou menos o seguinte:

-Quem roubou meu coração? O que aconteceu com o meu coração? Porque eles me operaram? Estou viva, mas não consigo entender o que está acontecendo!

Então, aos poucos, imagens começaram vir na minha mente: um acidente de moto, uma moça, um corpo sendo operado!

De repente, compreendi: o transplante de coração!

Os leitores que não tem o conhecimento sobre o mundo astral talvez tenham dificuldade para me entender: quando a pessoa morre, principalmente se for de forma brutal e inesperada, ela não consegue entender o acontecimento e pode passar um longo tempo confusa e presa ao momento do acontecido, repetindo e repetindo muitas vezes a mesma cena em sua mente, sem conseguir se livrar disso! É terrível!

O Jerry tinha um coração transplantado, de uma moca que havia morrido num acidente de moto!

E o que aconteceu?

Ela não tinha ainda notado que tinha morrido; sabia que tinha havido um acidente e que tinha sido operada; estava tentando reaver seu coração que ela sentia que havia sido retirado nessa cirurgia e cujas vibrações ela seguira e sentia que estavam ali, no corpo daquele homem!

Algo horripilante, mas totalmente possível no mundo astral!

Ela cobrava do Jerry, brigava com ele e dizia que ele tinha roubado seu coração!

Entendi também o porquê desse horário tão esquisito para ir à academia: era o horário em que ela começava a querer fazer contato com ele; ele acordava e não conseguia dormir mais; então sem saber explicar e entender o que estava acontecendo, levantava-se e ia se exercitar, o que acabou se tornando um hábito.

Daí para frente meu trabalho ficou mais fácil: todas as noites, antes de dormir, na meditação kundalini, ela era trazida para que eu conversasse com ela e explicasse pouco a pouco o que lhe havia acontecido.

E demorou várias noites! Ela era uma moça muito jovem, cheia de vida, corajosa, e não queria de forma alguma aceitar que estava “morta’.

-Como assim, morta? Estou aqui, viva, com meu corpo inteiro; só faltando meu coração ser devolvido por uma cirurgia para que eu fique bem!

Então eu fui pedindo que lhe fosse mostrado o momento do acidente, que ela pudesse visualizar seu corpo físico morto.

Ela chorou muito, esbravejou, berrou, não aceitava a morte de jeito nenhum!

Chamava pelos pais, principalmente pela mãe que também não tinha aceitado a perda da filha e que ainda chorava por ela.

Chamava também muito pelo namorado que eu penso estava com ela na moto, mas não morrera.

Depois de várias sessões, quando eu pensei que tinha se acalmado, começou a reclamar que não tinham pedido sua autorização para realizar o transplante! Ainda estava brava com o Jerry e com os médicos!

Vejam como a ignorância sobre as realidades do mundo astral complicam a nossa vida de encarnados!

Aos poucos ela foi sendo tratada, muitas pessoas amigas vinham cuidar dela, e ela foi melhorando a olhos vistos.

E eu, graças a Deus, passei a dormir a noite toda, sem ser acordada por barulhinhos!

 

Estava já chegando o dia do meu aniversario, 25 de maio.

Minha volta ao Brasil seria no inicio de junho.

E assim foi: eu não perguntei quando ele iria, nem quando eu voltaria. Já tinha entendido que estávamos dentro de um grande e maravilhoso jogo e que tudo se concretizaria de acordo com as nossas jogadas, com as nossas atitudes e com as nossas ações.

E comecei a adorar tudo isso!

       continua...                             



Escrito por Professora Malu Moraes às 14h15
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Capítulo 6 – A Vida Correndo Solta...

Minha irmã finalmente casou-se; foi uma cerimônia simples; o coquetel foi em casa mesmo; ainda não se usava tanto os salões de festa ou bufês. Nem sei como ela conseguiu fazer a festa: meu pai sem dinheiro, cheio de dívidas; minha mãe totalmente desligada; mas deu tudo certo. Foram morar numa casinha nova no bairro de S. José. O Cláudio era bancário e pelo que sei meu pai havia arranjado esse emprego para ele.

Nessa época tínhamos uma empregada, a Vitalina. Era solteira, morava com os pais numa casinha no bairro de São Bom Jesus. Ela freqüentava a igreja do Carmo, era filha de Maria. Ficamos amigas; ela me levava às missas, quermesses, procissões. Eu adorava ir aos domingos a casa dela: era muito simples, chão de terra batida no quintal; dentro da casa o chão era de tijolos bem limpinhos; muitas imagens de santos e anjos. O pai dela fumava cigarro de palha agachado na soleira da porta. A mãe era baixinha, andava por toda parte com uma sacola grande de feira. Tudo tão limpinho, tão simples... Depois ela se casou, foi morar em outra cidade.
 
Uma vez eu encontrei com a mãe dela na rua:
-E a Vitalina, como vai?
-Ela faleceu...
-Como assim?
-Morreu no parto...
-Oh meu Deus! E a criança?
-Morreu também...
Fiquei muito triste. Mas a mãe estava completamente conformada.

E a vida corria solta... Fui crescendo e minha socialização se dava na rua, nas turminhas que se formavam para jogar bola queimada. Brincávamos, brigávamos, conversávamos. Comecei a escutar umas conversas de como nascem os bebês e fiquei admirada. Uma coisa estranha, vergonhosa, esse tal de sexo; é feito escondido, ninguém fala sobre isso...
-Meus pais também fazem?
-Claro, sua tonta! Como você acha que nasceu?

Fiquei boquiaberta. E já era grande, devia ter uns 10 anos. E havia as “piadas” mais ou menos “sujas”; as revistinhas pornográficas que passavam escondido, de mão em mão. Eu achava aquilo sujo, vergonhoso, mas não podia evitar uma excitação. Comecei a ler livros mais “realistas”; tocava em meu corpo e sentia prazer, mas ao mesmo tempo achava aquilo meio esquisito, errado...

Havia aspectos da vida estranhos, assustadores, e dos quais não se falava.Ao mesmo tempo, eu tinha muito medo que falassem de mim, que me apontassem, que me acusassem de coisas erradas. Não sei por que, mas sempre me sentia culpada, inadequada, parecia que eu tinha feito coisas erradas.

Meu pai ameaçava, parece que me via como uma pessoa não confiável, fácil de ser levada para o mau caminho.
-Não quero saber de namoros. Não vá fazer como sua irmã, que arranjou namorado e parou de estudar! Tem que estudar, nada de namorado!

 E eu acabava me sentindo culpada, sentia-me esquisita, diferente: eu tinha desejos, queria um namorado mas pelo que meu pai dizia isso era muito errado! Hoje sei que essas sensações são comuns na adolescência, mas na época pensava que só eu me sentia assim.

Na escola eu ia bem, continuava lendo muito; no que se referia à religião eu era meio rebelde. Tinha feito a primeira comunhão meio forçada pela escola; havia me confessado sem saber o que dizer ao padre; a igreja era para mim um local triste, fechado, escuro e eu não entendia o que significavam aqueles rituais.

Estava naquela fase de rebeldia da adolescência: colocava bem alto o som do rock, dançava, me olhava no espelho e me sentia sedutora e ao mesmo tempo tão desajeitada...

Começaram então os namoros. Havia um vizinho, o Pedro, achava-o bonitinho. Um dia trocamos um beijo à luz do luar, muito romântico! Mas não passou disso, meu pai era bravo:
-Nada de namoro, tem que estudar. Já não basta a Marli ter parado de estudar!

O Cláudio, meu cunhado, tinha um irmão, o Clodoaldo. Eu o admirava; achava-o culto e inteligente. Ele era mais velho uns seis anos. Eu estava na oitava série, ele na faculdade de direito. Ele escrevia lindos poemas dedicados a mim; era discreto, educado. Encontrávamo-nos no jardinzinho, perto do Estádio Municipal.

Que tempo bom, romântico, cheio de perfumes das flores e poesias! Ele me mostrava os poetas, a literatura. E eu lia, lia tudo o que aparecia. Comecei a freqüentar a Biblioteca Pública, que ficava na Rua Padre Duarte, num casarão antigo. Comecei a ler Zola, Vitor Hugo, Guy de Maupassant, Balzac. Não sei por que, mas a literatura francesa me fascinava. Lia também os portugueses, principalmente Eça de Queirós; os brasileiros, principalmente Machado de Assis, e os Best Sellers estrangeiros. Lia tudo que aparecia, ao leo, sem orientação.

O namoro com o Clodo terminou: eu era muito criança e não correspondia aos seus ardores românticos...Mas as lembranças ficaram para sempre.

Nessa casa da avenida D. Pedro passei todo o final do primário, o ginasial e o começo do curso normal. Mas está me escapando tanta coisa: a formatura da quarta série do ginásio, os colegas cujos rostos e nomes se apagaram da minha memória...

Interessante como a vida é tão real e ao mesmo tempo tão irreal: percebo agora que real mesmo é só este momento; o passado se desfaz como se nunca tivesse existido; é como sombra, como fumaça que se esvai no tempo e volta a fazer parte da energia criativa do Universo, a qual está sempre criando o momento presente!

E como isso é bom!

                     continua...



Escrito por Professora Malu Moraes às 14h07
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Capítulo 4 - Visitas Indesejadas

 

Na manhã seguinte preparei um altarzinho na cômoda do quarto do J, com uma imagem de Jesus que encontrei e com um pratinho para acender minha vela. Co- loquei também um copo com água e sal grosso num cantinho bem discreto e coloquei o cd da Meditação Dinâmica do Osho.

Não sei se já falei sobre as meditações do Osho. Ele é um mestre indiano que criou um tipo de meditação diferente: em vez de você ficar sentado imóvel, você faz respirações, danças e liberações energéticas, para só no final ficar em silencio. Conheci esse Mestre querido em 1980 e nunca mais parei de fazer a Meditações Dinâmicas.

Foi uma meditação normal, nada de estranho a não ser muita liberação de raiva na hora da catarse. (catarse é o momento em que você deixa todas as emoções se expressarem através dos movimentos corporais).

Passei o dia normal e à noite, enquanto o Jerry dormia, fiz a meditação kundalini no pequeno quarto espelhado onde eu fazia meus alongamentos e minha yoga. Foi uma meditação normal e fui dormir um tanto ressabiada, pedindo aos anjos que me deixassem dormir bem a noite inteira.

Que nada! Lá pelas tantas, acho que 3 da madrugada, fui acordada, desta vez por uns barulhinhos, como que uns estralinhos na cortina que fica bem ao lado da cama. Ë uma grande porta de correr de vidro, que dá para o terraço e para o lago. Essa cortina é daquele tipo persiana vertical, e cobre toda  a porta de vidro.

Não eram barulhinhos comuns, daqueles que ocorrem normalmente nas casas de madeira, principalmente aqui onde o clima é muito seco e o sol muito quente.

Não.

Eram uns estralinhos que pareciam me chamar, e eu sentia que havia presenças no quarto. Estendi o braço e vi que o Jerry não estava; já tinha saído. Arrepiei-me inteirinha e de um pulo, acendi a luz de cabeceira.

Não vi nada, mas os estralinhos continuavam e também a sensação de presenças.

Não sabia o que fazer. Estava tonta de sono, apavorada, não conseguia nem rezar.

Sentada na cama, rezando, luz acesa, fiquei assim um tempão, até ouvir o barulho da porta da garagem: o Jerry chegando!

Então apaguei a luz e fingi que dormia.

O Jerry entrou no corredor e quando abriu a porta, vários estralinhos parecia que falavam com ele!

Continuei rezando até conseguir dormir com o dia já clareando.

E logo estava ele me acordando todo feliz para o café da manhã especial, sem saber que eu não tinha dormido nada.

 

Isso foi se repetindo todas as noites.

Eu já não sabia o que fazer, nem a quem recorrer. A minha sorte é que meus mentores me protegem sempre: eu não sentia cansaço nem sono durante o dia!

Nas meditações eu sentia que havia uma equipe trabalhando, inclusive sentia a presença dos índios nativos americanos que vinham das montanhas e trabalhavam ao redor da casa, ajudando na limpeza.

Uma noite, na meditação kundalini, percebi que havia uma reunião: várias canoas vieram pelo lago, os índios reuniram-se com meus mentores, vários grupos de proteção foram chamados e iniciou-se um trabalho na parte de cima da casa, no astral: foi criado no astral, bem acima da casa, um local de tratamento e recuperação espiritual.

No dia seguinte de manhã, o Jerry veio me falar que um dos dois barcos pedalinhos que ele tem amarrados com grossas cordas no deck aqui em frente da casa, tinha desaparecido. O barco tinha sido encontrado pelos seguranças do condomínio lá do outro lado do lago!

Artes dos índios?

Uma dessas noites em que não conseguia dormir, eu acabei adormecendo com a luz acesa e quando o Jerry chegou veio de mansinho e apagou a lâmpada de cabeceira. No outro dia de manhã ele estava todo preocupado; disse que tinha ficado impressionado porque se lembrara de quando a falecida esposa estava doente e não conseguia dormir. Aí contou que ela tinha crises de pânico e pedia para ele não ir para a academia e que ele não suportaria ter que viver tudo isso de novo!

Perceberam o tamanho do enrosco? Eu fiquei ainda mais apavorada e não podia falar nada, senão ele ia achar que o problema ia se repetir! E estava se repetindo, pois devia ser a energia dela se manifestando!

Não é nada fácil ter sensibilidade, sentir coisas e não saber muito bem o que fazer!

 

                   continua...                        



Escrito por Professora Malu Moraes às 22h07
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Capítulo 5 – Um Obstáculo Vencido.

Cheguei à primeira serie do ginásio. Naquele tempo havia o curso primário, que era da primeira até a quarta serie e só um professor por cada turma. Depois havia um exame de admissão para o ginásio, e então era tudo diferente; vários professores no mesmo dia, um para cada disciplina. Eu fiz um curso de admissão e estudava num livro grosso que tinha todas as matérias: era um livro muito bom, tinha mapas, ilustrações; e eu me sentia fascinada pelos novos conhecimentos.

Prestei o exame no Colégio São Bento. Na época, meu pai era Inspetor de Ensino; esse colégio era supervisionado por ele e nesse caso eu não pagaria apesar de ser um colégio particular.Para minha surpresa, passei! Achava que não iria passar, que não sabia nada, era tudo tão difícil! Será que o meu pai deu um empurrãozinho?  Não sei...

O uniforme era lindo: blusa branca, saia pregueada bordô e, o mais charmoso, gravata bordô combinando com a saia! O diretor, professor Walter, era muito exigente e mandava que verificassem todos os dias na entrada o comprimento das saias.

Era uma briga porque já estava chegando a moda das saias curtas; mas ainda se usava muito aquelas saias rodadas mais compridas. Era o tempo do rock and roll, e eu ia, escondido de meu pai, na Casa Barbiari e comprava (mandava marcar na conta dele) LPs do Elvis Presley, da Celly Campello e escutava  “Estúpido Cupido” até furar o disco em alto e bom som! Eu adorava o Elvis Presley, comprava revistas com suas fotos, era fã de carteirinha!

O ginásio era uma experiência nova todos os dias: vários professores, cada um na sua matéria; Professor Malaman, bonachão e paciente, lecionava historia; Professor Machadão e Professor Machadinho (acho que eram parentes!); o inesquecível professor Jurandir, uma fonte de sabedoria, lecionava português; Professora Teresa nos ensinava os compassos de musica, Professora Lilica, minha parente, lecionava Frances; Professora Gessy, matemática e a matéria mais difícil para mim, por incrível que pareça, trabalhos manuais!

Foi aí que me enrosquei! As outras matérias até que eu ia levando bem; os professores eram sérios, ninguém mais ficava orientando, olhando os cadernos e os deveres de casa como no curso primário; era cada um por si e Deus por todos. Mas não havia meio de eu conseguir fazer os tais “panos de amostra” onde eram bordados diversos tipos de pontos, um pedacinho em ponto cheio, outro em ponto cruz, e por aí afora. Também tinha que levar agulhas para tricô e as lãs; e eu nunca levava. Até hoje eu não entendo porque isso acontecia; minha mãe e minha irmã sabiam fazer tudo isso e em casa tinha todo esse material... Mas agora vejo que era uma época de revolta: eu não queria ser como elas, queria dançar rock and roll e usar saias curtas!

Um belo dia levei um “chega pra lá”!  A professora me intimou: se eu não trouxesse o tal paninho com todos os pontos bordados eu não entraria mais na sua aula! Conclusão: eu não ia à escola nos dias que tinha aula de trabalhos manuais! Arrumava meus materiais, me vestia, escondia os cadernos num cantinho do jardim e, detalhe! Pegava meu bambolê (brinquedo que tinha surgido naqueles dias) e ia para o clube. Brincava e bamboleava até chegar a hora de voltar para casa.Comecei a ser turista: só ia para a escola de vez em quando...

Por sorte a cavalaria apareceu para me salvar, na figura da tia Leonora! Ela veio passar uns dias na nossa casa e foi visitar uns parentes cujo filho, estudava na minha classe. Lá ficou sabendo do meu “turismo”. Então ela trouxe todos os cadernos do primo; me fez sentar e copiar todas as matérias que eu tinha perdido e me ajudou com o bendito “pano de amostra”. A partir daí não faltei mais às aulas, tomei gosto pelo estudo e só tirava boas notas!

Querida tia Leonora, você foi meu modelo e minha salvação! Você foi a pessoa que me mostrou que era possível uma mulher estudar,trabalhar fora, ser independente, bonita e bem cuidada! Que bom ter tido você na minha vida!

Ela foi professora primária, depois fez Faculdade de Letras, português e francês, foi diretora de escola, viajou para o exterior. Depois de aposentada fez Faculdade de Direito, estudava inglês e sempre tinha um namorado... Acho que eu segui esse modelo em quase tudo!

Bem, a partir daí nunca mais tive problemas na escola a não ser quando entrei na Faculdade de Letras. Que engraçado! Estou percebendo agora que na vida tudo vem em ciclos: as dificuldades se repetem, só que a cada vez fica mais fácil de vencer os obstáculos!

                                                                                                             continua...                                      



Escrito por Professora Malu Moraes às 20h54
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A Bolsinha da Tia Malu   

 

A tia Malu tem uma bolsinha. Ela ganhou de brinde quando comprou um perfume. É uma bolsa tipo sacolinha, lindinha, azul de um lado, cor de rosa do outro. Do lado azul tem a figura de uma jovem adolescente, magrinha e dançante! 

Tia Malu adora essa bolsinha, talvez por ser prática, mas também por ser de adolescente! Ela não gosta daquelas bolsas enormes que as “madames” usam, douradas, prateadas, poderosíssimas! Não. A tia Malu tem a alma adolescente e prefere a sua bolsinha cor de rosa...

Pois bem, a bolsinha da tia Malu apronta cada uma...

Toda vez que a tia Malu e o tio Jerry vão almoçar naqueles bufês super deliciosos dos cassinos de Las Vegas, a bolsinha vai junto. Chegando lá, eles têm que esperar para serem levados para a mesa e a moça pergunta:

 -Table or booth? 

 E eles se sentam naquelas mesas que em vez de cadeiras tem dois sofás; eles chamam isso de “booth”. (a pronúncia é “buf”e quer dizer “cabine”).

Então cada um vai se servir à vontade. Tem um balcão só de saladas, outros de comida italiana, mexicana, americana, oriental, uma maravilha! E outro delicioso só de doces, tortas, frutas, sorvetes, ai ai ai ... Isso tudo e ainda mais: chá, café, sodas e sucos, tudo à vontade!

Que tentação!

A bolsinha fica lá no sofá, de boca aberta, admirada de ver tanta fartura e por um preço tão baixo!

Pois não é que quando a tia Malu chega em casa e vai guardar a bolsinha no closet, sempre encontra um pedaço de bolo de chocolate embrulhado num guardanapo de papel? 

Então o tio Jerry pergunta, sorrindo: 

-Como é que esse bolo veio parar aqui?

A tia Malu olha para a bolsinha, a bolsinha olha para a tia Malu e elas respondem em coro:

- Foi ela!

 

 

 

 

 



Escrito por Professora Malu Moraes às 21h59
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Capítulo 4 – Querer é Poder

Vivíamos num ambiente conturbado e parecia que íamos nos deteriorando junto com a velha casa que por sinal nunca foi pintada em todos aqueles anos em que moramos nela. Pelo contrário, ficou mais velha, mais abandonada; as rachaduras nas paredes aumentavam, os móveis foram ficando maltratados; nada era consertado ou restaurado e nós também íamos crescendo meio aos trancos e barrancos.

Minha irmã Marli nessa época ficou noiva do Claudio; era um relacionamento meio estranho: ela abandonou a escola, não saía de casa, ficava bordando intermináveis toalhas em ponto cheio e escutando novelas no rádio. Ainda não havia televisão em nossa cidade.O Claudio era um moço reservado, educado, tocava violino! Minha irmã usava “rabo de cavalo”, saias rodadas e era muito bonita.

Eu estava no quarto ano primário e minha professora, D. Maria Helena era maravilhosa, perfeita e muito exigente! Tínhamos que escrever com caneta à pena, mergulhando no tinteiro até que a letra ficasse tão perfeita quanto à dela; só então ela autorizava o uso da caneta tinteiro, aquela que tinha o reservatório para a tinta.Para mim aquilo era uma tortura; eu era uma menina que andava descalça, de bicicleta, toda relaxada, uma verdadeira moleca. Eu era inteligente, tinha já lido toda a coleção do Monteiro Lobato, tirava boas notas. Mas era desleixada e nunca iria ter uma letra linda como aquela!

D. Maria Helena tinha três filhos; um deles era doente, precisava de alimentação especial e tratamento adequado; ela se desdobrava, cuidava da casa, dos filhos e do seu trabalho na escola com perfeição! Ela parecia tão distante de mim, inatingível, perto dela eu me sentia pequenina, inadequada, incapaz.

Hoje eu sei que ela é uma mulher excepcional, superior, não em orgulho ou vaidade, mas em capacidade e dedicação. Esteve sempre por perto de mim: foi minha professora no quarto ano primário, era minha vizinha de quarteirão e que surpresa, foi minha colega de classe na faculdade de Letras! Uma pessoa que iluminou a minha vida com seus exemplos e nem sabe disso em sua modéstia.

D. Maria Helena, minha querida, é com emoção que aproveito para me desculpar pelos escorregões no uso do vernáculo; esta sua aluna nunca foi nem será perfeccionista; se eu me preocupar muito com a forma não conseguirei a naturalidade para contar estas estórias... Beijos!

Minha pobre mãe ia tentando sobreviver em meio às vozes que ouvia: eram provocações, “acintes” como ela dizia. Parecia que ela vigiada o tempo todo, criticada e desafiada por essas vozes interiores. E ela se defendia como podia: brigava, falava alto, xingava.

Meu pai, coitado, também tentava à sua maneira sobreviver, sempre com as eternas dívidas, lutando com muita dificuldade. Nunca nos faltou nada; tudo o que queríamos comer íamos buscar no armazém do seu Martins lá na esquina e ele marcava na caderneta. Para as bugigangas, pequenos brinquedos e armarinhos, havia a lojinha da D. Clarice. E também a Padaria Aurora para o pão, o leite e os doces.

A vida era simples; não nos preocupávamos com luxo, pois não tínhamos vida social de espécie alguma. Apesar de sermos sócios do Clube, o melhor da cidade, não o freqüentávamos nunca. A sede de campo ficava pertinho, na mesma avenida onde morávamos, algumas quadras apenas. Eu ia sozinha, entrava e brincava no parquinho: tinha árvores enormes, balanços, gangorras, escorregador e areia. Tinha também um laguinho com peixes. Era uma delicia quando eu ia lá depois que tinha chovido, com tudo molhado e aquele cheiro bom de mato!

Um dia inventei que queria nadar. Havia só uma piscina grande, olímpica, que existe até hoje; nem dava pé para crianças. Eu ficava de longe espiando as crianças pularem dentro da piscina, que delícia devia ser! Eu dei um jeito de agarrar minha mãe pela mão e fiz com que ela fosse ao clube comigo. Fomos entrando pelo vestiário, nem me lembro se eu tinha um maiô ou um short, sei que corri para a piscina e fui descendo pela escadinha para dentro da água. Que delicia! Mal eu tinha entrado, com minha mãe ali ao lado olhando, lá veio a D. Ziza, a funcionária que cuidava da piscina. Eu me lembro bem dela, era alta, magra, cabelos compridos presos num coque, morena; trabalhou lá muitos anos e era muito conhecida. (seu filho se tornou um famoso jogador de futebol). Ela perguntou:
-Vocês são sócias?
Minha mãe disse que sim. Então ela explicou que para nadar era preciso primeiramente fazer um exame médico...

Tive que sair da água toda envergonhada, foi meu primeiro “mico” social. Mas não pensem que desanimei. Fui fazer o tal exame médico e comecei a ir sozinha. Entrava na piscina, ia me segurando nas bordas até o canto e me soltava, empurrando com os pés até alcançar o outro lado do canto. As outras crianças iam me ensinando e aos poucos eu estava nadando, não com perfeição, mas já me virava bem.

Já desde aquela época sei que uma força interior me conduzia; as circunstâncias da vida não eram fáceis, mas algo muito forte, que todos nós temos sempre me impulsionou.

E agora eu sei que “querer é poder”!

                                              

                                                                continua...                                                        



Escrito por Professora Malu Moraes às 22h33
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Capítulo 3 - Estórias Bem Assombradas

 

Pois bem, amigos leitores, então é que começaram as estórias que eu prefiro chamar de bem assombradas, porque por mais que pareçam estranhas e cheias de fantasmas, todas elas acabam levando sempre ao Bem Maior.

Retornei ao Brasil no final do mês de julho; continuamos nos falando pela internet, e no ano seguinte, 2008, ele me convidou para visitá-lo novamente, desta vez para ficar por três meses!

Embarquei no inicio de março, com volta marcada para final de maio. Passaríamos juntos o aniversario dele, 7 de março, e o meu, 25 de maio.

E assim foi feito.

Quando entrei na casa dele, desta vez já conhecida e querida, senti-me como se estivesse chegando a um ninho de amor, aconchegante e feliz.

Ele preparou tudo, limpou tudo; fazia o café da manhã e ia me acordar todo contente. Eu saía para caminhar dentro do condomínio, em volta dos lindos lagos. O tempo estava ameno, dias como sempre ensolarados e céu sempre azul.

Eu estava vivendo um sonho encantado!

Foi então que comecei a sentir umas coisas estranhas...

O Jerry tinha e tem até hoje o estranho hábito de acordar as duas da madrugada e ir para a academia, exercitando-se até as cinco. Então é que retorna à casa e faz o café da manhã.

Eu achava isso estranho demais, mas, cada louco com sua mania! Outra coisa que aprendi na minha vida é não tentar mudar as pessoas: além de elas não mudarem, você acaba frustrado e sem a companhia da pessoa!

Desde a vez anterior em que estive hospedada na casa dele, isso ocorria: ele acordava um pouco antes das duas, se levantava de mansinho e saia sem que eu sequer acordasse.

E eu só acordava de manhã, depois do sol clarear e ouvir os barulhinhos na cozinha.

Pois bem, desta vez foi diferente, comecei a acordar lá pelas três da manhã e sentir um medo, uma ansiedade, como se algo não estivesse bem.

Tateava na cama e ele não estava lá, tinha saído.

Imaginem uma casa no meio de gramados e lagos, sem barulho de espécie alguma, aquele silêncio que dava pra cortar com uma faca de tão palpável, e eu ali, com toda a sensibilidade que tenho, orelhas em pé e o corpo arrepiado!

Comecei a ficar em pânico, só pensava em sair dali, em ir embora!

Acendia todas as luzes da casa, tentava me acalmar, falava para mim mesma que estava tudo bem, mas aquele pânico era irracional: parecia que vinha do fundo da minha alma!

Comecei a pensar besteiras: e se ele morresse? O que eu faria ali naquele pais estranho, sem falar nada da língua, sem conhecer uma viva alma, a não ser ele?

Sim, porque ele não tinha me apresentado a ninguém, nem aos vizinhos, parecia que não tinha parentes nem amigos, ninguém nem telefonava para ele!

Fui para a cozinha, preparei um chá, o pânico aumentando. As janelas da cozinha, envidraçadas, davam para o lago e para a piscina; eu me assustava ainda mais ao olhar para fora e só perceber a escuridão e o silêncio.

Voltei correndo para o quarto, fui para o banheiro e comecei a encher a banheira para tomar um banho morno. A janela do banheiro também dava para o lago; a minha impressão era que em toda a volta da casa havia vultos ou pessoas!

Tentei não olhar para fora, tomei meu chá e meu banho, mas o pavor era tal que resolvi ir embora. Não ia ficar ali nem mais uma noite!

Fui arrumar minha mala, me vesti, e resolvi que quando ele chegasse, eu faria ele me levar direto para o aeroporto! Ingênua, achava que era como ir para a rodoviária e tomar o primeiro ônibus!

Só então fui me lembrar dos meus mentores, anjos de guarda e amigos espirituais!

Como é possível que exatamente na hora de maior necessidade, haja esses brancos, esses esquecimentos!

Já vestida para viajar, sentei-me e comecei a rezar em voz alta. Rezei tudo o que sabia e chamei todos os anjos e santos que conhecia!

 

Aí então, aos poucos, bem devagarzinho, comecei a me acalmar e ouvir aquela conhecida intuição, como que um pensamento dentro da minha cabeça:

-Calma querida! Não precisa ficar assim. Calma!

E fui me acalmando. Dizia a mim mesma:

-Como você vai explicar a ele tudo isso? Ele vai pensar que você é louca de pedra! E se você for embora, acabou o namoro, acabou o sonho encantado, acabou tudo. Pare e pense! Isso vai passar!

Olhei no relógio: quatro e meia da madrugada! Ele estava para chegar!

Corri a apagar todas as luzes, me enfiei na cama de roupa e tudo e fiquei bem quietinha, rezando!

Mais alguns minutos e ouvi o portão da garagem se abrindo.

Aos poucos, o dia começou a clarear e eu adormeci, toda vestida para viajar!

Até hoje ele não sabe do acontecido, nem suspeita do meu banho às quatro da madrugada.

 

No outro dia, fiz minhas meditações e percebi que havia uma grande perturbação espiritual que se manifestava como medo e que tinha a ver com aquela tão linda casa e com as pessoas que ali tinham vivido.

Então a minha velha conhecida voz intuitiva me falou:

 

-“Pois é, querida, é isso mesmo!

Você pensa que é só vir aqui, desfrutar de toda a mordomia e aconchego, e não dar nada em troca? Este Universo funciona à base de troca e se você está recebendo tanta coisa, o que tem para dar em troca?

Sua sensibilidade, sua intuição, seu jeito de conversar com as energias superiores, seu trabalho espiritual!”

 

Eu não tinha noção, mas uma nova aventura no mundo do espiritualismo estava se iniciando em minha vida.

 



Escrito por Professora Malu Moraes às 21h28
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A Casa Velha

 

No fim do ano fui aprovada para o segundo ano e surpresa: nova mudança de casa! E desta vez para pior; as coisas não iam bem financeiramente e meu pai alugou uma casa na mesma avenida D. Pedro, só que mais longe do centro.

Era uma casa grande e velha; a pintura estava toda escura e descascada. Na frente, o jardim: canteiros com espirradeiras, aquela que dá flores cor de rosa; buxinho, um arbusto que costuma ser podado em vários formatos e o inesquecível pé de manacá, com suas florzinhas tão perfumadas! Do lado direito um corredor largo e em seguida o quintal enorme cheio de árvores. Havia todo tipo de frutas: parreira de uvas, pitanga, jabuticaba, caqui, pêra, caju, mexerica, goiaba e até um enorme pé de abacate. Uma festa: o chão era de terra batida; também tinha um galinheiro e um quartinho e banheiro para empregada.

Aquela casa foi mágica e trágica; foi muito marcante em toda essa fase da minha vida. Era uma casa confortável e espaçosa, só que totalmente abandonada, precisando de reforma, pintura e cuidados. Agora percebo que ela refletia a nossa família, que se encontrava na mesma situação...

Do lado direito tinha uma grande terraço, comprido, com arcos na volta toda e em cada arco uma persiana. E no fundo do terraço, já quase chegando à parreira de uvas, ficava a minha escadinha de três degraus encerados, onde eu passava horas brincando.

Havia uma sala grande, dupla, cujas janelas davam para esse terraço. Eram janelas antigas, com vidraças e venezianas de abrir lateralmente. Muitas vezes eu sonhei que fechava todas as janelas, com medo de algo que estava lá fora e quando acabava de fechar a ultima, lá estavam todas abertas novamente!

Os quartos, como em todas as casas antigas, davam para a sala. Eram três, sendo que o quarto dos meus pais era duplo, tinha um “quarto de vestir”. Saindo da sala, um corredor; `a direita, o banheiro, antiqüíssimo, com banheira de pezinhos, janela de madeira. À esquerda, a cozinha, enorme, com janelas e portas antigas, de madeira. Saindo da cozinha, uma escada de uns seis degraus ( a casa, para completar, tinha porão!), aí vinha o tanque e o imenso quintal.

As paredes tinham rachaduras enormes; nas noites de tempestade eu ficava apavorada; achava que a casa ia cair nas nossas cabeças. O quintal era uma festa durante o dia; à noite era escuro e assustador! Eu vivia trepada nas goiabeiras, no cajueiro e até no alto do abacateiro eu subia; lá de cima dava para ver todo o quarteirão!

Nessa fase eu brincava muito com a molecada da rua, jogávamos bola queimada e pega- pega até depois de escurecer. Agora eu estudava num grupo escolar Antonio J de carvalho que ficava no antigo Largo da Câmara e estava no segundo ano. Eu ia bem, tirava boas notas e adorava acompanhar a professora, D. Irene, por um trecho do caminho na saída de escola.

Nessa época, já com uns oito anos, ganhei de meu pai duas coleções de livros: o Reino Infantil, de contos de fadas e toda a obra infantil do Monteiro Lobato, em 18 volumes encadernados na cor verde. Ali comecei a entrar no mundo mágico da literatura: o Sítio do Picapau Amarelo, Emília, Pedrinho, Narizinho, Dona benta, Tia Nastácia. Eu lia, lia, lia muito; brincava no quintal, na rua, ia para a escola, andava de bicicleta (agora eu já tinha uma bicicleta grande, preta) por toda a vizinhança. E tudo isso eu vivia completamente afastada da família, como se não existisse mais ninguém, só eu e o meu mundo.

Mas existiam os outros e as coisas não iam nada bem. Meu pai, não sei como, comprara em sociedade com seu irmão Syrthes uma fazenda, onde plantavam cana. Íamos para lá todos os domingos, num caminhãozinho verde de carroceria de madeira, uma gracinha, acho que era um “Ford de bigode”. Nessa altura, meu irmão Alcidinho já tinha uns quatro anos; minha irmã Martha estava namorando o Clóvis e minha mãe, pasmem, estava grávida novamente!

Íamos na carroceria, era uma aventura! No caminho brincávamos que havia o morro da tarântula, a aranha de um filme de terror que estava nos cinemas da época. Na fazenda, íamos pegar peixinhos de peneira no riacho; catávamos gabirobas, umas frutinhas perfumadas; comíamos pão feito em casa no forno de lenha com café, andávamos à cavalo. À tardinha voltávamos, já escurecendo.

Meu pai não tinha sorte: um dia vieram chamar dizendo que tinha alastrado fogo no canavial. Ainda não estava na hora de cortar, perderam toda a colheita. Ele vendeu a parte dele da fazenda, mas ficaram muitas dívidas, dívidas eternas que não acabaram nunca mais!

Ele sempre culpava a doença da minha mãe:

-Não tenho mulher! Desde que sua mãe foi internada, gastei muito, nunca mais me recuperei!

Foi ficando triste, amargo, desiludido. Chegou a se interessar por política, acho até que se candidatou a vereador, mas também não deu certo. Começou a freqüentar bares, acomodou-se com o ordenado de inspetor de ensino, mas sempre lutava com as dividas, com os famosos “papagaios”, empréstimos que fazia nos bancos.

Minha mãe, cada vez mais nervosa, brigava, falava sozinha, xingava. A vida foi ficando insuportável; meu pai ficava nervoso, gritava com ela, não adiantava. Percebo agora que as crises vinham em ciclos: ela nervosa, ele nervoso, ia piorando até que um dia ele explodia, gritava, quebrava algum objeto da casa; aí ela ficava prostrada, alquebrada e sossegava por alguns dias. Depois o inferno recomeçava.

O irmãozinho caçula, Miguel (nome do avô), nasceu naquele clima. Era uma criança linda, nasceu grande e forte. Tinha a pele e os cabelos claros como os da minha mãe; ele era muito saudável, cresceu logo. Minha irmã Martha, eu e a Nadir, a filha da D. Amélia, empregada que morava lá com a filha, revezávamos para tomar conta do nenê. Eu era terrível, brava, nervosa, não queria ter obrigações, nem ajudar em nada lá em casa. Na verdade, não tínhamos disciplina, nem ninguém ensinava ou orientava nos serviços e obrigações.

Um dia começou uma movimentação diferente em casa. Meu tio Syrthes, que era médico veio e aplicaram umas injeções em minha mãe. O clima era tenso, porque ela se recusava e eles insistiam que ela aceitasse tomar os remédios. Eu ficava escondida pelos cantos, espiando; ninguém falava o que estava acontecendo.

Escutei o comentário:

-Maria Julia é forte como um touro! Já tomou doses fortes de sedativo e não dorme de jeito nenhum!

Eles iam interná-la à revelia, já que ela se recusava violentamente.

Aquilo tudo foi muito chocante. Chegou uma ambulância, ela finalmente dormiu, saiu de maca! Eu fiquei espiando tudo, assustada! Ninguém me explicava nada! Para onde ela ia? Aquilo doeu como se fosse um pedaço de mim indo embora, sinto ainda hoje! Ao mesmo tempo sentia um alivio, como se agora tudo fosse ficar mais leve e mais fácil.

Mas não era bem assim. Minha irmã estava com uns quinze anos e teve que assumir a casa e um bebê novo de seis meses. Havia a D. Amélia, empregada, a Nadir, sua filha, a Martha, eu, o Alcidinho, o nenê e meu pai. Havia também a cachorrinha Laika, que era da família. A Martha estava namorando firme com o Clovis, que também freqüentava a casa.

Hoje percebo que havia uma enorme perturbação espiritual. Meu pai freqüentava bares, mas nunca perdeu o controle dentro de casa, sempre manteve a linha e cuidou bem de nós. Na verdade, nada nos faltava, na medida do possível: comida, roupa, escola, empregada. Meu pai nunca nos abandonou e sempre lutou sozinho para manter a casa em pé. Mas havia toda essa desarmonia e todos esses conflitos, porque minha mãe tinha uma sensibilidade aguçada que captava como uma antena todas as perturbações e as manifestava como podia.

Infelizmente havia pouco entendimento sobre a parte emocional e espiritual; faltou o apoio e o amparo que a oração pode proporcionar, mas na verdade o Universo nunca nos desamparou.

 

                                                                              continua...                                                          



Escrito por Professora Malu Moraes às 15h22
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Capitulo 2 - As Casas...

 

Dessa casa, que ficava na Avenida Duque de Caxias, mudamos para outra nova, recém construída, na Avenida Espanha.

Meu pai construiu a casa financiada pelo instituto; nessa época ele já era inspetor de ensino; não ganhava muito, não tinha o apoio da esposa que já estava “doente mental”, tinha duas filhas para criar; foi difícil. Mesmo assim ele conseguiu terminar a casa e comprou mobília nova, toda em madeira torneada, com espelhos em cima de cada móvel. A sala era linda, havia um espelho grande na parede, a mesa de jantar com oito cadeiras estofadas, vasos, enfeites.

Eu ficava admirada com os banheiros: havia um só para nós, as mulheres, azul e cor de rosa, com banheira! E outro menor, inteiro branco, só para ele! Um luxo! Os quartos tinham armários embutidos, a cozinha também. Os pisos eram em tacos de madeira, a cozinha em pastilhas brancas! Tudo claro, novo, bonito!

Mas infelizmente toda essa prosperidade material não estava baseada no equilíbrio emocional e espiritual da família.

Minha mãe estava sempre nervosa, falando sozinha, resmungando pelos cantos. Meu pai, como todo bom descendente de italianos, queria ter um herdeiro, um menino que desse continuidade à família. Então mesmo doente, ela engravidou, mas a criança não chegou a nascer naquela casa.

Na época eu não sabia de nada; tinha cinco anos e só brincava alegre com minha bicicletinha de duas rodas e com as crianças da vizinhança. Penso que ele deve ter gastado demais na construção, na compra dos moveis e se endividou tanto que não conseguiu pagar o financiamento. Não sei exatamente quanto tempo moramos na casa bonita; só sei que foi por pouco tempo. E agora é que me dou conta: aquela casa não tinha nenhuma escadinha...

Fomos morar de aluguel numa casinha menor, mais simples, mas também muito bonitinha na avenida D. Pedro. Essa tinha um terracinho na frente e a famosa escadinha de três degraus encerados que dava para o jardinzinho com mureta baixa e portão. Eu gostava dali: logo na esquina havia o jardim da Independência, cheio de árvores enormes, bancos de madeira pintados de verde e recantos lindos para brincar e andar de bicicleta; para mim era uma verdadeira floresta.

Eu ali brincava, já estava com quase seis anos; minha irmã já era uma mocinha. Eram os anos cinqüenta, ela usava saia rodada, rabo de cavalo, punha discos na vitrola, tinha amigas, paquerava e acho que até namoricava com o rapazinho do sobrado em frente. E eu já achava lindo um menino lourinho, o Paulinho, que morava por perto e andava de bicicleta no jardim.

O novo irmãozinho nasceu naquela casa. Engraçado como não me lembro da minha mãe barriguda, não me lembro da chegada do nenê. Minhas lembranças são dele já sentadinho no carrinho, minha mãe dando papinha para ele. Era uma criança um pouco frágil, tinha crises de bronquite, chorava à noite. Chamava-se Alcindo Junior; costume de italianos, colocar nomes iguais.

Não tínhamos muito contato com os parentes. Do lado do meu pai, havia meu avô, e dois tios, casados e que moravam na mesma cidade, mas que pouco os víamos, pois minha mãe implicava com eles e com as cunhadas e não podia vê-los que ficava nervosa. Os outros moravam fora e era ainda mais raro encontrá-los.

Os parentes da minha mãe eram minha avó Judite, viúva, que viera de Iguape com os filhos: Maria Judite (minha mãe),

Ilaura, Maria Jo ( a querida tia Petita), Leonora e Geraldo. O avô Geraldo falecera ainda moço e a avó Judite viera com os filhos pequenos para o interior de São Paulo, onde tinha parentes que a ajudariam na criação dos filhos.

A única parenta que aparecia em nossa casa era a tia Leonora, pois era solteira e gostava de visitar a irmã e ver os sobrinhos. As outras tias eram chegadas, mas pouco podíamos nos encontrar, pois moravam em outra cidade.

Quando fiz seis anos, passei a gostar de folhear revistinhas em quadrinhos, os gibis. Meu pai notou que eu colocava a revistinha muito perto do rosto e um dia fomos ao oculista; na semana seguinte eu já estava usando óculos!

O médico espantou-se, pois que o grau da miopia era já alto e foi se agravando durante toda a minha infância, até que cheguei aos quatorze anos, quando então se estabilizou. Mas passei toda a adolescência com óculos daqueles tipo “fundo de garrafa”. Não foi fácil; os óculos chamavam a atenção das pessoas, não era comum naquela época crianças usarem óculos; eu ficava constrangida com a curiosidade das pessoas e queria me esconder ainda mais.

Desde então comecei a me refugiar na leitura e antes de ser alfabetizada já passava horas com as revistinhas e gibis.

No ano seguinte, 1955, fui para a escola, primeiro ano, cabeça de pano! Naquele tempo não havia escolinha maternal, pré- escola, nada disso. Íamos para a escola aos sete anos; eu ia completá-los em maio, fui para o Colégio onde minha irmã já estudava.

Que escola linda, que alegria! Escadarias, salas, pátio, tudo tão grande, tão bonito! Eu achava lindo o uniforme, ainda mais que minha irmã já tinha usado igual! Era um aventalzinho xadrez de preto e branco, amarrado nas costas, sapatos pretos e meias brancas.

E lá fui eu, com meus óculos, minha bolsa e minha lancheira!

Eu aprendia rápido! Um dia, fiquei apavorada quando a professora, Dona Mercedes, mandou que eu tirasse os óculos e falasse quais as letras que estavam escritas num cartaz, lá na lousa! Eu não enxergava nem o cartaz, quanto mais as letras! Errei todas, diante de toda a turma! Que vergonha! Ficou claro que eu era “deficiente visual” e que não enxergava nada sem meus óculos. Isso me envergonhava, sentia-me diferente. “Quatro olhos” era como me chamavam quando queriam me ofender. E conseguiam.

Ia a pé para a escola, era perto de casa. Não sei por que, mas um menino começou a me perseguir, xingar, corria atrás de mim. Eu fugia, mudava de calçada. Não contava para ninguém. Agora percebo o quanto eu era fechada, não conversava com meus pais, nem com minha irmã. Vivia fechada dentro de mim, isolada. Mas isso era por dentro. Quem me visse por fora não notaria nada de anormal: eu ia para a escola, aprendia, brincava e corria como as outras crianças no recreio, ia para casa, fazia as tarefas. Mas havia uma solidão, uma falta de comunicação com os adultos, uma incapacidade de fazer perguntas, de me interessar, de viver.

Há muitas crianças assim, carentes de atenção, carentes de afeto, carentes de saber mais sobre si mesmas, sem conseguir expressar seus sentimentos e sensações. E há muitos adultos assim, alias, somos quase todos assim: vivemos para o mundo exterior, somos superficiais, sem qualquer consciência de nós mesmos, de nossa própria existência, de nosso próprio valor, de nossa verdadeira razão de viver.

E assim vamos vivendo, até que a Vida vai encontrando formas e maneiras, as mais criativas, de ir nos mostrando, de ir nos empurrando para dentro de nós mesmos, seja pelo amor, seja pela dor.

De qualquer forma, estamos indo todos para algum lugar; a única coisa que eu sei é que esse lugar é o “Bem Maior”, Universo, Deus, ou seja, qual for o nome, e que nessa caminhada cada vez mais nos sentiremos felizes e realizados quanto mais nos aproximarmos de nós mesmos e de nossa essência verdadeira.

                                     continua...não perca!                                                                  



Escrito por Professora Malu Moraes às 17h35
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Capítulo 1 - Primeiras Lembranças

 

Quando dei por conta de mim, nesta vida, eu já era uma meninona taluda, forte, que gostava de brincar com a criançada na rua, pedalando na minha linda bicicletinha de duas rodas.

Antes disso lembro-me de uma charretinha, puxada por um cavalinho branco: a gente sentava na boléia, pedalava, e o cavalinho misteriosamente andava! Então chegou a bicicletinha nova, toda embrulhada em papel pardo, ao lado da minha cama, dia de Natal! A charretinha então foi embora, levada pelo tio Dauri: ela ia para minhas primas que moravam em uma cidadezinha da região. Pensam que eu queria dar a charretinha? Não queria, fiquei magoada. Também, não me consultaram! E era minha...

Acho que eu era meio desligada, meio parada. Não era uma dessas crianças vivas, espertas, ligadas no que os adultos diziam ou faziam. Era introspectiva, brincava muito sozinha, o mundo era para mim uma coisa distante, nebulosa... Penso que eu nunca enxerguei muito bem, mas não me dava conta disso.

Minha mãe, Maria Judite, era uma figura quieta, que ficava sempre na cozinha, perto do fogão. Lembro-me dela fritando uns bolinhos, que depois ela recheava com creme, polvilhava com açúcar e canela e, que delicia! Chamavam-se “sonhos”! De vez em quando eu percebia que ela falava sozinha, no fogão; ficava brava, xingava. Eu não ligava, ficava na minha, brincando sozinha no chão, embaixo da mesa.

Meu pai, Alcindo, era um homem alto, magro, de bigode. Quando ele chegava, algo mudava; acho que era porque ele falava alto, com a voz grossa. Às vezes brincava comigo. Lembro-me de uma brincadeira que eu agachava, passava os bracinhos para trás das pernas, ele puxava as minhas mãos e eu virava uma cambalhota. Que susto!

Minha irmã, Marli, já era mocinha, sete anos mais velha. Vejo sua figura indo para a escola, de uniforme, saia pregueada, com os livros e cadernos nos braços. Eu achava lindo e importante ir para a escola!

A casa era antiga, aquelas de janelas altas e estreitas, com vidraças de abrir e venezianas de madeira. O chão era de tabuas de encerar. Na frente havia um terracinho, uma escadinha e o portão de ferro que dava para a rua.

Sempre gostei muito dos alpendres e das escadinhas; vejo agora que em todas as casas em que morei na infância, havia uma escadinha, sempre de degraus encerados e lisos, onde eu adorava brincar. Brincava com pedrinhas, com saquinhos que minha mãe costurava e enchia de grãos de arroz, miudezas que eu juntava. Uma vez inventei uma brincadeira com vidrinhos vazios de remédios, de todos os tamanhos e formatos. Eles formavam famílias, os maiores eram os pais, os menores eram os filhos. E eu criava toda uma historia; havia sala, quarto, cozinha e tudo isso eu montava nos degraus da escadinha...

Percebo agora que eu era muito solitária: minha mãe vivia no seu mundo interior, falava com suas vozes; não me lembro dela conversando comigo nem para dar broncas, nem para aconselhar ou ensinar; meu pai sempre na rua, no trabalho ou nos bares com amigos; quase não recebíamos visitas nem saiamos, porque minha mãe era “diferente”; tínhamos vergonha, medo que ela fizesse escândalo ou xingasse as pessoas.

E eu também vivia no meu mundo: brincava sim, era solta; ficava o dia todo à vontade, um pouco menina de rua; andava descalça, às vezes não tomava banho, parecia um moleque. Não era atenta aos acontecimentos do mundo nem aos adultos; só enxergava as coisas mais próximas de mim.

Se eu era feliz? Não sei. Não sentia muito as coisas, acho que já nasci meio dopada. Hoje sei que minha mãe tomava

remédios psiquiátricos; antes de eu nascer ela tinha tido uma crise muito seria: de repente tinha ficado parada, em estado de choque, não se mexia nem falava. Foi um susto porque até ali ela tinha sido uma moça normal, tinha se formado professora primária, casou-se, teve uma filha (minha irmã mais velha) que já estava com quatro anos. Tudo normal. Meu pai era farmacêutico, moravam numa cidadezinha junto com minha avó e com minhas tias.

Meu pai, filho de imigrantes italianos, tinha dois irmãos estudantes de medicina, era farmacêutico, e tinha uma formação totalmente cientifica e nada religiosa. Naquela época quase nada se sabia de problemas emocionais ou espirituais. Conclusão: quando minha mãe adoeceu, foi levada ao psiquiatra, tomou remédios, e acabou sendo internada em uma clinica em Campinas, onde ainda se usava ministrar eletro choques. Resultado: dali para frente ela voltou a se movimentar e a falar, mas teria que tomar remédios para sempre. E nunca mais voltou a ser como antes.

Tudo isso me contaram mais tarde; aconteceu uns três anos antes de eu nascer. Então creio que fui gerada já com toda essa problemática no meu contexto emocional e absorvi muito dessas substâncias que ela ingeria no meu organismo.

Por tudo isso e pelas minhas próprias condições psicológicas, eu era essa criança meio desligada, desatenta do mundo exterior; não me lembro de ter muitos sentimentos e sensações, nem de amar, nem de ter sido amada. Hoje vejo que eu me sentia abandonada, medrosa e insegura, mas era inconsciente disso. Mas vejo também que, por outro lado, a vida me propiciou todas as condições favoráveis para meu desenvolvimento: um corpo saudável, casa, abrigo, alimento, pais, irmãos, escola.

E agora sei que minha lição nesta vida é aprender a fortalecer meu emocional, confiar mais em mim mesma, no Universo, em Deus. Saber que não estou abandonada e que confiando na Vida posso me aconchegar em mim mesma, sem precisar depender de que as pessoas venham me apoiar ou sustentar.

 

           

continua..                     

                                                                      

 

 

 



Escrito por Professora Malu Moraes às 15h30
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Esta Estória Tem Graça Sim

 

Queridos amigos

 

Este livro é o produto dos diários que escrevi em minha vida inteira: desde a adolescência comecei a escrever e não parei mais.

Com o passar dos anos, comecei a perceber que eu não escrevia sozinha; sempre havia a presença de “amigos invisíveis” que vinham me inspirar e ajudar a manter viva a vontade de escrever.

Quando veio a idéia de reunir tudo em livro, eu relutei:

-Minha estória não tem graça nenhuma. Para que contá-la?

 

E então a Equipe se manifestou:

“-Tem graça sim. Em primeiro lugar, todas as estórias têm graça. Isso porque todas as pessoas são manifestações divinas e tudo o que acontece neste mundo faz parte da Grande Trama do Universo e merece ser contada para aumentar a experiência coletiva e assim acelerar a evolução dos povos. Para isso serve a literatura, a ficção, a poesia, o teatro e todas as artes.

Em segundo lugar porque, apesar de tu não saberes disso, a tua estória é sim especial, pois que a tua persistência e teu trabalho contigo mesma deram e dão frutos maravilhosos, e todos precisam saber para que sirva de incentivo a pessoas com problemas parecidos.”.

 

Eu então sorri:

-Ok, mas então coloquem umas pitadas de alegria e bom humor, para que não fique um dramalhão...

-Deixa conosco!

 

Então aí está a minha estória, numa linguagem simples, sem pretensões literárias, mas que de todo o coração eu ofereço a todos que acreditam que o Amor, a Paz e a Felicidade são conquistas do ser humano e que vale a pena trabalhar consigo mesmo para alcançar tudo isso.

 

Um grande abraço,

 

Malu.

 



Escrito por Professora Malu Moraes às 13h52
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Capítulo 2 - O Meu Americano Especial

 

Ele era viúvo, do segundo casamento.

O primeiro casamento foi muito cedo em sua vida; ainda jovenzinho foi servir o exercito e foi mandado para a Alemanha. Lá conheceu uma moça da mesma idade, Dorothy. Envolveram-se, ele voltou com ela para os Estados Unidos.

Casaram-se, tiveram três filhos: Padrig, Marjorie e Terence.

Mais tarde, ele voltou a estudar e conheceu uma moça já mais vivida, mãe de alguns filhos (nem sei quantos) e foi informado que ela estava grávida dele. Na época ainda não havia o exame de DNA; ele aceitou a criança e ajudou como pôde, pois que já era casado.

Quando o filho mais velho estava com dezoito anos, ele foi informado pela mulher Dorothy que ela queria se separar. Dizia que nunca o havia amado, que se casou só para ser cidadã americana e que agora estava apaixonada de verdade e queria a separação.

Ele conta que sofreu muito por se separar dos filhos; essa é a versão dele; espero um dia ter outras versões, inclusive dos filhos.

Então conheceu a Olivia. Ela era oito anos mais velha do que ele, viúva, mãe de três filhos: duas meninas e um rapaz.

Eles se casaram e assumindo essa nova família, ele acabou se distanciando da família anterior.

Os filhos adolescentes do primeiro casamento então começaram a dar sinal de vida...

A mais problemática era a Terence. Desde criança de forte personalidade, aos treze anos já pulava a janela do quarto e saia à noite sem ninguém saber para onde.

Conheceu um rapaz nas mesmas condições, as drogas tomaram conta da vida dos dois e os resultados foram desastrosos.

Tiveram dois filhos: Dillon e Chesley, crianças que cresceram ao Deus dará e que mais tarde, quando tanto o pai como a Terence morreram nas garras das drogas, foram adotados por uma das filhas de Olivia.

Vejam só que misturada de amor e drama!

Para completar as tragédias, quando o Jerry se casou com Olivia e foram viajar para a lua de mel no Havaí, ela começou a se sentir muito doente e acabou descobrindo que estava com hepatite C! Tinha feito uma histerectomia antes de se casar e fora infectada!

Então vejam: ele casou com uma mulher já doente, mãe de três filhos e alguns anos mais velha; mas contando-me tudo isso, ele não me passa nenhum sentimento de queixa nem revolta; tudo parece normal e dentro da naturalidade.

Na verdade, fico sem saber se ele a amava ou se casou somente para ter companhia! E como teve!

Também me contou que tinha tido já há alguns anos atrás um ataque cardíaco e que tinha feito um transplante de coração. Por isso tinha que se cuidar, fazer muitos exercícios, cuidar da alimentação, e tomar vários remédios.

Bem, quando eu o conheci ele era viúvo recente: estava sozinho na casa e procurando companhia novamente.

E por um mês inteiro vivemos uma feliz lua de mel, sem qualquer mínimo aborrecimento: uma felicidade só.

 

 



Escrito por Professora Malu Moraes às 18h42
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Este momento...

 

Neste momento sinto

Como se a mesma brisa suave e doce da adolescência

Viesse me visitar.

Neste momento sinto

O céu nublado encobrindo a lua cheia

Neste momento sinto

O suave perfume do manacá florido

E todas as promessas felizes de uma vida que está por vir.

Neste momento sinto

Que a idade não importa

O que importa são os sonhos a se realizar.

Neste momento sinto

A eternidade deste momento!

 



Escrito por Professora Malu Moraes às 19h00
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